Dia 8
Diário do recomeço
“A dor é como um orgasmo: a cada vez que ela chegar, você precisa deixá-la te consumir por inteira e saber que ela passará”.
É a segunda vez que a Amanda Holzer me explica isso, dentro de uma semana. Existe a segunda parte dessa reflexão, a respeito do sofrimento (que é diferente da dor), mas quero falar da dor em si.
Ontem, foi o primeiro dia que saí de casa em uma semana. Não havia mais comida e tomei banho com shampoo nos últimos dois dias, já que o sabonete também acabou.
Depois eu vou ao mercado.
Depois eu como.
Depois eu compro sabonete.
Dizem as pessoas que estão passando por alguma dor que, aparentemente, insiste em martelar e moer cada gota de esperança de que a situação se reverta.
Até que ontem, decidi que precisava ir ao culto de qualquer jeito. Convidei uma aluna que virou uma amiga querida. Ela veio passar uns dias na cidade e nunca havia ido a essa igreja, então resolvi que era hora de colocar a cara no mundo, após sete dias enclausurada.
Quando ela se emocionou com as palavras do pastor, meu pensamento foi “Valeu a pena me esforçar para sair de casa. Se não fosse isso, minha amiga não teria sido tocada hoje por essas palavras durante o culto”.
Nós fomos jantar em um lugar que eu achava uma graça e sempre pensei em conhecer. Pena que acabei visitando só quando estou indo embora de Santa Catarina, porque é lindo.
Conversamos sobre mim e sobre ela. Enquanto eu falava, era como se me libertasse um pouquinho mais do que sinto e alguma clareza chegasse aos meus pensamentos. Falar foi uma maneira de organizar o caos que precede a ordem.
E a dor?
Não a senti enquanto estava na igreja, e não a senti no restaurante com a minha amiga. Sobretudo, não a senti enquanto me rendia a uma coca zero gelada — eles sempre estiveram certos em vender felicidade, em vez de refrigerante, pois é isso mesmo que mora naquela latinha vermelha.
Assim como o orgasmo, a dor tem hora para acontecer. Ela precisa vir, nos revirar do avesso e passar.
Deixar a dor ir é condição sine qua non, está fora de cogitação negociar a sua estadia. Ela precisa ir, nem que você a enxote a pontapés. Sucumbir não é uma opção.
Hoje, saí de casa de novo. Finalmente, fui ao mercado, precisava comprar comida e sabonete. Enquanto escolhia um pé de rúcula, a Amanda me ligou.
Atendo a ligação de pouquíssimas pessoas na vida, até porque ninguém telefona para ninguém hoje em dia, mas larguei a rúcula e abri um sorriso quando vi o nome dela na tela.
Ela queria saber como eu estava e conversamos enquanto continuei fazendo compras. Ela me lembrou da teoria do orgasmo, me disse outra coisa que me emocionou e, quando dei por mim, estava chorando no meio de um corredor, com um cacho de banana na mão.
“Amanda, você me fez chorar no mercado. Vão me achar uma doida varrida”.
Quando disse isso, percebi que chorar no mercado é muito melhor do que chorar em casa. No mercado, para não ser vista como doida, você precisa enxugar as lágrimas e parar rápido. Em casa, não há ninguém para te julgar, então é fácil se agarrar à dor, quando ela vem, e não soltá-la mais.
Lembra que, como o orgasmo, a dor precisa vir, nos revirar do avesso e depois ir?!
Agradeci à Amanda pela força e coloquei as bananas no carrinho. Orgasmo, dor, bananas, era muita coisa junto para processar.
E eu não podia me esquecer do sabonete. Basta de tomar banho com shampoo!
Até a próxima,
Gabriela Pazos



Aí Gabi me fez rir aqui, vou te contar eu não sou de sair de casa, sou bem quietinha.
Acredite eu saio às vezes para chorar... sabe o seu chorar no mercado? Sou adepta, as vezes desço sento na bike da academia do meu prédio choro e PAH sempre chega alguém e pronto disfarço, me recomponho!
No mercado, no shopping, no parque, outro dia sentei na livraria abri um livro e chorei discretamente!
Claro, não deixo de chorar em casa em posição fetal , mas sim eu sou a doída varrida que as vezes saibros chorar! 🤣💞